domingo, 27 de agosto de 2017

Crítica | Como Nossos Pais

Como Nossos Pais

Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri, Sophia Valverde e Annalara Prates

Sinopse 

"Rosa é uma mulher que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Quanto mais tenta acertar, mais tem a sensação de estar errando. Filha de intelectuais dos anos 70 e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas duas gerações que exigem que ela seja engajada, moderna e onipresente, uma super-mulher sem falhas nem vontades próprias. Rosa vê-se submergindo em culpa e fracassos, até que em um almoço de domingo, recebe uma notícia bombástica de sua mãe. A partir desse episódio, Rosa inicia uma redescoberta de si mesma."



Esse é um filme sobre a família moderna, com um enfoque na mulher moderna, que é filha, mãe, esposa, trabalha, com todas as obrigações de cada uma dessas suas versões, mas que continua sendo mulher, com todas as características e necessidades intrínsecas à esse gênero.

Como dito na sinopse, o longa traz a história de Rosa (Maria Ribeiro), personagem que representa a mulher atual, cobrada por todos e extremamente culpada por não conseguir atender as expectativas de todos, principalmente as dela própria. E, assim, retrata todas as exigências que são impostas à mulher da atualidade, que deve ser uma super mulher, bem sucedida e feliz em todas as esferas da sua vida, o que não é uma realidade para a maioria das mulheres. Mas, principalmente, traz o conflito desta personagem para buscar a sua felicidade, mesmo com toda essa cobrança.

A trama é desenvolvida a partir do momento em que a mãe de Rosa, Clarisse (Clarisse Abujamra), revela à ela que o homem que ela conheceu como a sua figura paterna, o qual foi a sua referência de carinho e amor (visto que a sua relação com a mãe sempre foi conflituosa), não é seu pai biológico.

Ela é fruto de um caso amoroso da mãe. Abalada com esta informação, pois o pai com o qual Rosa cresceu, apesar de não ter sido o melhor marido para a sua mãe, sempre foi presente em sua vida, tudo começar a desandar na sua vida. Assim, ela começa a questionar suas escolhas profissionais, seu casamento, sua relação com os pais, procurando se redescobrir.

Rosa e a mãe são duas mulheres fortes, de gerações e crenças diferentes, mas que lidam com as mesmas cobranças machistas sobre as mulheres em uma sociedade que não mudou nesse quesito durante os anos. Com a revelação da origem de Rosa, elas chegam em um ponto da relação delas em que tudo está às claras e Rosa, através de conversas cada vez mais francas com a mãe, passa a reconhecer em sua progenitora (que sempre foi muito diferente dela), certas semelhanças, visto que, como disse Belchior, "apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais". Deste modo, mãe e filha têm que aprender, então, a lidar com as repercussões de todas as escolhas que fizeram na vida, boas e ruins, a fim de preservar a relação que tem, já que o tempo é finito, e "qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa".

Foi muito bom ver protagonistas mulheres tão marcantes na telona, trazendo uma discussão progressista e despojada sobre o papel da mulher da sociedade. As atrizes trouxeram uma carga dramática muito forte à suas personagens, fazendo com que fosse possível ao público sentir todos fortes sentimentos desse "acerto de contas" entre mãe e filha. Sentimentos esses que muitas de nós podemos já ter sentido em nossas vidas, devido à questões parecidas com as da personagem ou não. 

Em meio à todo esse conflito Rosa também que lidar com uma crise em seu casamento. O seu marido Dado (Paulo Vilhena) é um antropólogo idealista que passa muito tempo viajando e, por isso, conhece pouco da rotina da casa, sobrecarregando a mulher. Dessa maneira, ele apenas se dá conta de que é casado com uma super mulher quando ela começa esse processo de transformação, buscando retomar sonhos que havia deixado para trás, como escrever uma peça de teatro, e refletindo sobre o que ela realmente quer e o que não quer para si mesma, o que inclui o casamento deles dois.

A química dos dois atores é muito interessante. É possível perceber, aos poucos, os dois mudando, se transformando. E, ao mesmo tempo que acompanhamos o desabrochar de Rosa e sua confusão de sentimentos em relação ao marido, também torcemos para os dois encontrem a felicidade, sejam juntos ou separados. 

Enfim, esse é um filme atual, que busca mostrar a realidade sem floreios. Os ações e sentimentos são postos às claras, como acontecem com qualquer um. As questões familiares trabalhadas estão presentes em várias famílias e, assim, é possível ao público se identificar com a história, principalmente as mulheres. A escolha por trabalhar com um tema realístico foi bem acertada. Esse é um filme que possibilita a reflexão, deixando uma sementinha que vai brotar aos poucos na mente do público que cuidar do terreno fértil da crítica social que essa trama traz.

E, uma curiosidade: o filme traz o mesmo título da música de Belchior, conhecida na voz de Elis Regina, "Como nossos pais". Contudo, a diretora do longa, Laís Bodanzky, como afirmou em entrevista durante a estreia do filme no 67ª Festival de Berlim este ano, não queria trazer a letra da música para a trama, pois achava que ela não cabia no contexto que ela queria explorar. A ideia era trabalhar apenas o significado que o título desta composição aborda. No entanto, ela teve a sugestão de colocar apenas a melodia da música no filme, o que resulta em uma cena emocionante em que a personagem Clarisse toca a música no piano, e tudo se encaixa perfeitamente na história.

"- A transgressão, quando você assume, ela te faz uma pessoa muito melhor.
- Você recomenda?
- Muito!"

Crítica feita pela colaboradora Virginia Santiago
Deliciosos Vícios


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