quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Crítica | Blade Runner 2049 - USA | UK | Canada - 2017

Blade Runner 2049
Direção: Denis Villeneuve
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto mais
Gêneros Ficção científica, Suspense
Sinopse
California, 2049. Após os problemas enfrentados com os Nexus 8, uma nova espécie de replicantes é desenvolvida, de forma que seja mais obediente aos humanos. Um deles é K (Ryan Gosling), um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles. Após encontrar Sapper Morton (Dave Bautista), K descobre um fascinante segredo: a replicante Rachel (Sean Young) teve um filho, mantido em sigilo até então. A possibilidade de que replicantes se reproduzam pode desencadear uma guerra deles com os humanos, o que faz com que a tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envie para encontrar e eliminar a criança.





O anúncio de que Blade Runner (1982) teria uma continuação em 2017 foi recebido com muito receio pelos fãs da obra original. Não só o filme clássico tinha a estética, a narrativa e o ritmo muito distantes do que é comercialmente aceito no cinema hollywoodiano contemporâneo, como também contava com um final “aberto” belíssimo que não pedia maiores explicações e que abria espaço para as discussões filosóficas e existenciais sobre história. Parecia impossível que uma continuação fosse algo positivo, e o projeto soava mais como mais uma tentativa de Hollywood de comercializar em cima de franquias antigas. 

Aos poucos, porém, na medida em que os nomes envolvidos nessa empreitada eram anunciados, o receio passou a ganhar contornos de esperança: Denis Villeneuve, um dos maiores diretores dessa geração, seria responsável pelo filme. Seu sombrio e melancólico thriller investigativo “Os Suspeitos”, o drama psicológico complexo e filosófico de “O Homem Duplicado” bem como a grandiloquente e tocante ficção cientifica de “A Chegada” davam a entender que, se algum diretor contemporâneo poderia fazer um novo Blade Runner, era ele. A presença do mestre Roger Deakins como diretor de fotografia também parecia um casamento perfeito, era o nome ideal para reproduzir à sensacional estética do filme original. A volta de Harrison Ford encarnando o mesmo personagem da obra clássica completou o pacote e cimentou Blade Runner 2049 como a promessa de uma possível continuação relevante e artisticamente ambiciosa. E, felizmente, assim o foi. 

A primeira cena de cara da o tom do que esta continuação tem a oferecer. Assim como na obra original, somos apresentados à premissa do filme através de um breve letreiro, depois vemos um close de um olho e uma nave atravessando a tela embalada por acordes eletrônicos grandiosos. Porém, enquanto no filme original o cenário era a megalópole escura e flamejante de Los Angeles com seus arranha-céus salpicados de luzes, em Blade Runner 2049 a nave voa por planícies cinzentas e enevoadas recortadas por fazendas sintéticas. A mensagem fica clara, o universo será expandido e o filme terá uma identidade própria, construída em cima do legado da obra original, mas não se limitando aos conceitos visuais e temáticos pré-estabelecidos.

Esse jogo entre o clássico e o novo fica aparente no excelente roteiro que não só respeita todas as discussões filosóficas e existenciais do original como expande e atualiza essas questões para abordar temas mais relevantes nos dias atuais. A estrutura do roteiro segue o mesmo padrão do filme de 82, uma investigação policial neo-noir que serve de apoio para o desenvolvimento dos dramas internos dos personagens e das discussões temáticas propostas pelo enredo. A diferença aqui é que a historia acaba se desdobrando em diversas camadas e se revelando muito mais ambiciosa e abrangente do que inicialmente aparenta, contando com elementos genuinamente surpreendentes e com ideias e conceitos novos que conferem maior profundidade ao já incrível universo ficcional da historia. É reconfortante perceber que o filme não caiu na armadilha de tentar criar um enredo mais dinâmico ou com mais ação, apostando no mesmo ritmo contemplativo do original e não fugindo de abordar questões complexas.

Apesar disto, o roteiro tem algumas falhas, algumas cenas recorrem à exposição direta e pouco sútil para informar o expectador sobre o background da história e algumas viradas e revelações sobre aquele mundo acontecem de forma abrupta e pouco desenvolvida. Além disso, os subtextos religiosos, que já eram presentes na obra original, aqui são escancarados e abordados de maneira óbvia (principalmente através do personagem Niander Wallace, interpretado por Jared Leto), e embora essas alegorias religiosas sejam interessantes, faltou elegância em trabalhar isso de forma que soasse menos pretensioso e mais interpretativo, como é o caso do filme original. Mas são problemas pequenos e naturais dentro de uma obra de 160 minutos de duração com um roteiro ambicioso e um universo tão rico como esse, o saldo geral é extremamente positivo e mostra que toda a equipe por trás do filme entendeu o que torna Blade Runner tão interessante.

O filme também acerta em cheio naquele que talvez seja o ponto mais revolucionário e marcante da obra original: a estética. Toda a direção de arte é meticulosa em não só recriar o clima do original, mas em expandir aquele universo, desenvolvendo novos cenários extremamente detalhados e com identidade visual própria que são explorados e justificados pelo roteiro, desde as formas angulares de madeira da corporação Wallace, até as pilhas de destroços dos depósitos de lixo que circundam a cidade. A Los Angeles em 2049, por sinal, aparece escura e decadente como aquela de 2019, mas com novas características que evitam com que se torne uma mera cópia, sejam os gigantes hologramas de propaganda ou as constantes chuvas de granizo. Todos estes cenários grandiosos são fotografados de maneira magistral por Roger Deakins, criando jogos de luz e cores maravilhosos que não só são esteticamente belos como extremamente informativos e coerentes narrativamente, desde o laranja quente de uma Las Vegas destruída e radioativa até os brancos e cinzas estéreis da estação de polícia. O filme também conta com algumas imagens e sequências que são simplesmente arrebatadoras visualmente, como o nascimento de uma replicante, que cai de um saco de plástico como um produto e parece esculpida em barro, ou uma transição onde as fagulhas emitidas por uma fogueira flutuam para o céu noturno se transformando nas luzes da cidade.

O filme conta também com cenas de ação pontuais que são interessantíssimas. Ao invés de apelar para o estilo contemporâneo esperado na construção de sequências deste tipo, o filme recorre a situações criativas e inusitadas que remetem ao original. Basta lembrar-se das piruetas e golpes estranhos da Pris e do pitoresco jogo de “esconde esconde” entre Roy Batty e Deckard no final dou filme de 82, para entender. Uma sequência que ocorre em meio a um show musical holográfico é especialmente instigante e extremamente bem dirigida.

A trilha sonora é um dos poucos aspectos que não parece ter tanto equilíbrio entre o clássico e a novidade. A tentativa aqui é emular o máximo o som característico de Vangelis, tão responsável pela identidade do filme original, e, quando remete às melodias já conhecidas, a trilha funciona muito bem, gerando uma camada de nostalgia, mas também complementando esta nova historia. O problema são os novos temas e melodias que não são nem de longe tão marcantes e originais, e soam mais como imitações bem feitas, porém desinteressantes do que já havia sido feito antes. Não chega a comprometer, mas é o aspecto menos ambicioso deste novo filme. 

O elenco faz um belo trabalho, com destaque para Ryan Gosling como K e Ana de Armas como Joi, os dois possuem arcos dramáticos belíssimos e tocantes e conseguem expressar todas as nuances desses personagens que não são exatamente fáceis de serem interpretados. Harrison Ford também é uma grata surpresa, não só pela sua presença marcante e seu carisma imediato, mas por ter momentos consideravelmente expressivos e dramáticos aqui. O filme também conta com participações competentes de Dave Bautista como o estoico replicante Sapper, Robin Wright como a tenente Joshi, chefe do oficial K, Carla Juri como a Dra. Ana Stelline e Mackenzie Davis como a prostituta replicante Mariette. Os pontos negativos ficam por conta do já citado Jared Leto, que recebe a tarefa ingrata de entregar os monólogos religiosos de Niander Wallace, mas não consegue fugir do caricatural e Sylvia Hoeks como Luv que acaba sendo uma capanga unidimensional de luxo.

Apesar dos pequenos defeitos, é inegável como Blade Runner 2049 é uma obra admirável, seja pela sua longa (e justificada) duração, pelo ritmo deliberado e contemplativo ou pelas discussões interessantes que gera sobre a humanidade. Não é tão revolucionário ou icônico quanto o filme de 1982 e nem tentar ser, porém, demonstra ambição e respeito na mesma medida, ao valorizar tudo aquilo que é adorado no filme de Ridley Scott ao mesmo tempo em que expande o escopo visual, narrativo e temático deste universo. Acima de tudo, porém, é louvável que a história consiga deixar questões abertas para a discussão sem necessariamente parecer um filme preocupado em criar uma nova franquia. O roteiro é satisfatório, mas não entrega resoluções totalmente coesas e claramente amarradas, valorizando aquilo que o filme de 1982 entendia e que é cada vez mais raro no cinema comercial contemporâneo: o espaço para a imaginação.

Resenha Feita por Gustavo Camargo
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